QUEREMOS SABER




Nem tudo que é comum é natural
Por Patricia Moreira
Antes da leitura do texto gostaria de propor a seguinte charada:
“Pai e filho sofrem um acidente terrível de carro. Alguém chama a ambulância, mas o pai não resiste e morre no local. O filho é socorrido e levado ao hospital às pressas. Ao chegar no hospital, a pessoa mais competente do centro cirúrgico vê o menino e diz: ‘Não posso operar este menino! Ele é meu filho!” Quem é a pessoa mais competente do centro cirúrgico??

Resposta: a mãe do menino
A primeira vez que li esse enigma eu não pensei nessa resposta, e você? Mesmo que tenha pensado, acredito que você chute que a grande maioria das pessoas não pensam. E esse é o motivo que me faz escrever esse texto.
A compreensão que temos sobre quem somos infelizmente é muito limitada, digo isso pois, em todos esse tempo estudando Psicologia, percebo que a busca pela psicoterapia está associada a necessidade de autoconhecimento, não é à toa que os livros de autoajuda fazem tanto sucesso.
No entanto, a busca por autoconhecimento é diária, cansativa e não se faz somente na psicoterapia, o que leva muitos a abandonarem o processo. É mais fácil compreender padrões pré-estabelecidos do que olhar para si e enfrentar uma jornada de aprofundamento em seu eu mais íntimo. Não, não existe uma fórmula mágica, qualquer um que queira vendê-la estará sendo desonesto.
Existem muitos motivos para que a busca desse conhecimento profundo seja interrompida, eles variam, mas, com certeza, podemos afirmar que os poderes político e econômico têm fortes influências na produção de psicopatologias e o tão famigerado autoboicote. Afinal, um povo apático e que “puxa seu próprio tapete” é facilmente manipulável.
Uma das formas de autoconhecimento mais boicotadas na história é a sexualidade, se estamos falando da sexualidade feminina e não heteronormativa (termo utilizado para definir a compreensão de sexualidade considerada normal, no caso a heterossexualidade) então, poderíamos dizer que não é boicote e sim uma luta violenta de repressão. O desejo sexual é natural no ser humano e vai muito além do ato sexual, nos abrange em nossa totalidade e, dessa forma, controlá-lo é uma ferramenta de altíssimo poder.
Bruna Suruagy do Amaram Dantas em seu artigo “Sexualidade, cristianismo e poder” remonta a história do cristianismo desde o século IV até o século XX, nesse processo ela analisa de forma minuciosa os discursos cristãos que sempre foram de alguma forma contrários ao desejo sexual. A Igreja Católica na Idade Média era contra o casamento, ela não participava do ato, o casamento era somente um contrato feito de forma discreta. O interesse político fez com que a Igreja se aproximasse dessa esfera com o intuito de controlá-la, incorporando-a em seu ritual, atualmente considerado um de seus cinco sacramentos*
Uma das formas de controle do casamento exercido pela Igreja está relacionado ao ato sexual, o casal era obrigado a descrever na confissão todo ato sexual que foi realizado, pois o desejo sexual era considerado pecado. Já no início do século XX as igrejas protestantes se colocavam de uma forma mais livre em relação ao ato sexual, porém só o autorizam entre pessoas casadas, o fiel que cometesse o pecado de transar antes do casamento deveria o confessar na frente de toda a comunidade. O casamento e o ato sexual só passaram a ser aceitos por conta da reprodução, porém o desejo sexual continuou sendo objeto de pecado.
Nas palavras da autora:
“As estratégias eclesiásticas consistiam em utilizar o saber obtido nas práticas confessionais para dominar o corpo e o desejo dos fiéis, tornando-o dócil e obediente, com o propósito de consolidar a autoridade moral e o poder político da Igreja Cristã.” (p. 726)
Além do cristianismo outro grande poder que influencia as questões relacionadas à sexualidade é a sociedade patriarcal. Não existe uma definição unânime sobre o que é o patriarcado. Janaiky Pereira de Almeida analisa em sua dissertação de mestrado esse conceito, afirmando a dificuldade de trazer uma definição única e concisa sobre este - para compreensão, meu posicionamento neste texto em relação a definição de uma sociedade patriarcal é basicamente: uma sociedade dominada por homens brancos e heterossexuais, explicarei mais adiante.
Janaiky propõe discutir o patriarcado em relação à estrutura capitalista, não como sinônimos, porém como conceitos que estão emaranhados de tal forma que, especialmente nos dias de hoje, o patriarcado se tornou invisível, como se fosse algo natural, como vimos na charada no começo do texto. Naturalizamos que mulheres não estejam em lugares de poder, por isso não imaginamos que a mãe do menino poderia ser a pessoa mais competente do centro cirúrgico. No entanto, não há nada de natural nessa situação. Essa é uma estrutura que reproduz sempre o mesmo padrão, logo faz com que todos que estão inseridos nela também a reproduzam, na grande maioria das vezes sem perceber.
Para a autora, as necessidades de produção e a divisão social do trabalho definiram papéis em relação ao gênero que foram se instalando nas sociedades ocidentais. Se sustentou então o argumento biológico para garantir a construção de papéis bem delimitada, a gravidez se colocou como um empecilho para o trabalho feminino, pois a produção não poderia parar, a geração de bens materiais e de lucro não poderiam “atrasar” para que uma mulher pudesse parir e cuidar de seu bebê. Novamente parece “natural” que as mulheres fiquem com o cuidado e os homens com o trabalho.
A análise Janaiky me fez perceber a importância de diferenciar o que é natural daquilo que fazemos de forma automática. O comportamento automático é aquele que não temos consciência, fazemos sem de fato perceber, já o comportamento natural está relacionado a uma necessidade vital, como dormir, comer, fazer sexo, necessidades fisiológicas de forma geral. Às vezes podemos fazer essas atividades também de forma automática. Logo, toda atividade que fazemos sem nos darmos conta é uma atividade automática, porém, nem toda atividade automática é natural. Natural também não é a mesma coisa que comum, não é porque é comum homens estarem em posições de poder que isso é natural.
Percebo que costumamos usar essa palavra “natural” quando não queremos assumir a responsabilidade das nossas atitudes, quando fingimos que não fomos omissos, descuidados, preconceituosos, etc. Agir sem pensar não é natural, não ter consciência dos nossos atos não é natural, essa é uma condição do sistema patriarcal que estamos inseridos, é dessa forma que reproduzimos os comportamentos que são esperados para a manutenção do mesmo.
Agir com naturalidade não é agir sem consciência, no automático, agir com naturalidade é ter consciência de quem se é e do que se quer, estar aliado a suas necessidades e vontades.
A história do mundo patriarcal envolve uma ideia bem definida não só de sexualidade, mas também de gênero, construiu-se a compreensão binária, ou seja, ou é homem ou é mulher. Dentro disso se construiu o que cada papel de gênero deve cumprir, sendo o homem a figura de máximo respeito, porém somente se este homem apresenta comportamentos heterossexuais.
Bruna, no estudo sobre Cristianismo e sexualidade, afirma que a Igreja Católica considerava um pecado mais grave um homem ser homossexual do que uma mulher ser homossexual. Também não era permitido ao homem, em uma relação sexual heterossexual, estar embaixo de uma mulher. Isso diz muito sobre as opressões de gênero e de orientação sexual.
Dessa forma, ao passo que se compreende como o patriarcado se estrutura é inevitável questionar as construções de gênero e também sobre as possibilidades de orientação sexual. Até que ponto podemos afirmar que gênero e sexualidade são determinados pela genética? A normalização da heterossexualidade é mesmo uma questão de padrões biológicos de comportamento? O que a ciência tem a dizer sobre esse tema?
Gênero e sexualidade são coisas diferentes, porém é muito difícil discuti-los de forma separada, por isso é preciso marcar essa diferença. A sexualidade está relacionada com o desejo sexual e a quem eu direciono esse desejo ( homessexual, bissexual, heterossexual, panssexual, assexual) gênero está ligado com a forma com que eu me identifico (não-binário, mulher, homem, transsexual, travesti). Essas são definições compreendidas pela ciência atualmente, é importante afirmar que não-binário abrange outras categorias como agênero, gênero neutro e intersexo, todes que não se compreendem dentro de uma definição que separa homem e mulher.
As diferenças de gênero impostas pelo patriarcado não são apenas uma forma de compreender o mundo, muito menos uma opinião, mas um fato. Para dar um exemplo, o Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum) publica todo ano um relatório sobre a desigualdade de gênero no mundo, o Global Gender Gap Report. Em 2019 constataram que, se a sociedade manter seus padrões relacionados a gênero, dentro de 100 anos será possível viver em uma sociedade igualitária, isso quer dizer que ninguém que está vivo atualmente poderá desfrutar dessa conquista. Além disso, mulheres têm representação política de apenas 25%, ou seja, 75% dos cargos políticos no mundo são ocupados por homens. Importante destacar que o resultado dessa pesquisa relaciona as diferenças dentro do sistema binário, ou seja, entre homens e mulheres.
Quando digo igualdade entre os gêneros não estou excluindo suas diferenças, estou afirmando a necessidade da mulher poderem ocupar os mesmos espaços que os homens heterossexuais e serem respeitadas de forma igual. Hoje em dia essa desigualdade está em cada passo que a mulher dá. Eu, como uma mulher, se saio na rua tenho que lidar com abusos e olhares constantes em relação ao meu corpo, preciso aceitar que não posso andar em qualquer lugar e que preciso prestar atenção em cada homem que se aproxima, pois a qualquer momento um deles pode se sentir no direito de encostar no meu corpo ou mostrar seu pênis. A cada dia 180 mulheres são estupradas no Brasil, e esses são somente os dados dos estupros que são notificados, pois muitas mulheres não têm coragem de denunciar, isso acontece porque nesse processo terão que enfrentar um mundo que ainda a culpa por ter sido vítima de um crime.
O que leva um homem a achar que pode fazer isso? Se você respondeu impunidade, acredite, vai muito além disso. Em março de 2021 o jogador de futebol Robinho foi condenado pela Justiça Italiana a 9 anos de prisão por participar de um estupro coletivo, crime cometido em 2013. Em outubro de 2020 os documentos da acusação foram vazados, sobre o crime o jogador pronunciou em entrevista: “infelizmente existe esse movimento feminista”, como tentativa de provar sua inocência, em palavras pouco claras, ele afirma que não reconhece que cometeu um crime contra a mulher, que ela estava o acusando injustamente sob a tutela de um movimento social que a beneficia. Para ele o problema real foi a traição, pois é casado.
A corte Italiana afirma que os depoimentos dos criminosos foram claramente mentirosos e que, analisando as mensagens de texto trocadas entre o jogador e a vítima, é possível observar desprezo pela mulher que foi claramente humilhada. Uma das tentativas de defesa do criminoso foi um dossiê com fotos que relacionam a vítima com uso de bebidas alcoólicas, ou seja, eles acreditam que, caso uma mulher esteja bêbada, qualquer ato sexual é permitido.
Gostaria de comparar esse caso com outro estupro que ocorreu no Brasil, o caso da vítima Mariana Ferrer, onde todas as provas indicavam a violência que a influencer passou, no entando, a Justiça brasileira, em uma decisão histórica e lamentável, considerou inocente o empresário André de Camargo Aranha, pois ele não teria como saber se Mariana consentiu ou não a relação, dessa forma não se comprovou a intensão de cometer um estupro.
Nas duas situações os homens acusados do crime pouco se importam com a condenação, a questão é justificar o ato e desvalidar a vítima. Vou fazer uma comparação ridícula, porém talvez necessária:
Imagine que alguém te ofereceu uma comida diferente, que você nunca provou, você decide provar, porém quando a comida está perto do seu nariz você sente um cheiro estranho e decide que não quer mais provar, a pessoa diz então que não importa, se você aceitou, chegou a colocar a comida perto da boca, agora você tem que comer, então abre a sua boca a força e te obriga engolir, isso não seria violência?
Imagine que você aceitou comer porque tinha bebido e não sabia muito bem o que queria, e ao mastigar a comida percebe que não gosta e cospe, e pessoa então diz que você não tem o direito de negar, pois você decidiu beber e por isso não pode escolher o que quer e o que não quer, e te obriga a comer, não seria uma violência?
A pessoa pode alegar que você estava com a boca aberta e por isso permitiu que colocasse em sua boca a tal comida, mesmo que de fato a sua boca estava aberta porque estava dormindo e não tinha controle sobre o corpo, não seria uma violência?
Se você respondeu sim para as três perguntas, espero que entenda que não importa se a mulher tinha ou não bebido, se estava ou não com uma roupa curta, se ela chegou ou não chegou desejar transar, a partir do momento que ela diz que não quer, ou ainda, se ela nada consegue dizer, e a outra pessoa continua é estupro. Não, quem cala não consente, está mais do que na hora de repensarmos esse ditado!
Gostaria que você percebesse que nesses dois casos de estupro citados não houve consentimento consciente da vítima sobre o ato sexual, e mesmo assim os dois homens decidiram seguir com o ato, pois consideraram que a mesma não tinha o direito de ser respeitada.
Dentro dessa lógica, o desejo do homem é soberano. Não importa qual condenação, não importa o relato da mulher. Isso se chama patriarcado, provavelmente esses homens não se sentem culpados, eles simplesmente acreditam que o que fizeram é justificável.
Obviamente esse não é um sistema dado, mas construído durante muitos anos, reforçado por estereótipos enganosos e sustentado por ideias mirabolantes onde o feminino se apresenta como inferior, quase que destinado a se subordinar ao masculino. Dessa forma, homens gays afeminados também sofrem, mulheres trans e travestis, pois esboçam feminilidade, o que é considerado uma fraqueza no mundo patriarcal.
A heterossexualidade e a visão binária de gênero dentro da sociedade patriarcal se estabelecem como norma, ou seja, tudo e todos que não se encaixam nesse padrão são considerados desviantes. Esse modelo foi importado das ciências naturais, resultado da observação e estudo de animais. Porém, quando falamos sobre o ser humano, as ciências naturais nunca poderão explicá-lo em sua totalidade. Esse é outro fato. Quando falamos sobre o fenômeno humano precisamos de outras ferramentas que nos ajudem a acessá-lo de forma mais integral, estamos falando da Psicologia e da Sociologia, e, atualmente, também da espiritualidade. Toda vez que alguém busca explicar um comportamento humano utilizando o conhecimento de apenas uma dessas áreas do conhecimento terá uma compreensão incompleta.
Então, independente do que a sua religião prega ou das funções relacionadas à reprodução que a Biologia explica, elas nunca irão dar conta de ditar verdades absolutas sobre sexualidade e gênero. Aliás, verdades absolutas funcionam bem em sistemas religiosos (alguns políticos também, infelizmente), fora deles esse tipo de afirmação é limitante e impede a evolução, principalmente na ciência.
Dessa forma, os estudos relacionados à sexualidade e gênero, que envolvem vários aspectos de várias ciências, têm nos mostrado que existem muitas formas de manifestação da sexualidade, que gênero sofre uma importante influência social e ambos cumprem um papel importante na construção da identidade.
Quando negamos as diversas possibilidades de expressão de gênero e sexualidade, estamos não só negando achados importantíssimos sobre a história da humanidade, mas também negando a existência de centenas de milhares de pessoas que lutam, muitas vezes com a própria vida, para ter a sua forma de existência reconhecida.
Voltando às perguntas lançadas anteriormente. Até que ponto podemos afirmar que gênero e sexualidade são determinados pela genética? A normalização da heterossexualidade é mesmo uma questão de padrões biológicos de comportamento? O que a ciência tem a dizer sobre esse tema?
A genética determina nossos órgãos reprodutores, podemos nascer com um pênis, com uma vagina ou ainda com os dois. Aproximadamente aos 5 anos de idade nós buscamos uma referência de gênero e isso não está ligado com a nossa orientação sexual, pois essa será definida somente na puberdade. Recentemente pesquisas científicas conseguiram compreender diferenças importantes no cérebro de pessoas trans, o que indica componentes genéticos na identidade de gênero.
Segundo Diane Papalia a identidade de gênero depende principalmente de três fatores: papéis de gênero, tipificação de gênero e estereótipos de gênero. Os papéis de gênero são construídos através do comportamento, interesses, atitudes, habilidades e traços da personalidade culturalmente construídos. A tipificação é identificação de um desses papéis que se dá ainda na infância, os estereótipos são generalizações pré-concebidas em relação aos gêneros, a partir dos 2 anos as crianças já reproduzem esses estereótipos.
Diane apresenta diversas teorias sobre como a identidade de gênero é construída. As mais atuais não conseguem chegar a uma conclusão sobre o nível de influência social que esse processo sofre, porém é evidente que há uma influência grande. De toda forma sabemos que a mesma não é determinante. Podemos confirmar isso quando nos deparamos com a história de Bruce, um menino canadense que teve, acidentalmente, seu pênis decepado aos 7 meses de idade.
Bruce foi submetido a uma cirurgia de circuncisão, não por conta da religião, mas por uma dificuldade em urinar. Nessa cirurgia, um erro médico levou a perda do órgão genital do menino. Após algum tempo os pais de Bruce encontraram o psicólogo John Money, ele afirmava, em sua teoria, que a biologia não exercia um papel tão influente na identidade de gênero e convenceu os pais de submeter o menino a uma cirurgia para a criação de um órgão genital feminino para então criar Bruce como uma menina. Essa cirurgia foi realizada quando o menino tinha 17 meses.
A partir de então se chamava Brenda, em sua infância tudo ocorreu bem, porém na puberdade Bruce começou a apresentar comportamentos agressivos e pensamento suicida, os pais então suspenderam o tratamento com Money e contaram a Bruce que ele nascera menino. A partir de então decidiu se chamar David e depois de muitas cirurgias conseguiu reconstituir seu órgão genital, infelizmente essa história não termina bem e você pode conferir ela na íntegra no site da BBC.
De fato, não há uma determinação social em relação a identidade de gênero, por outro lado também não há uma determinação genética, podemos observar no caso da Influenciar Mandy Candy, uma mulher transsexual, ou seja, ela nasceu com o órgão genital masculino, no entanto não se identificava como homem, mesmo sendo criada como um. Você pode conferir a história dela nesse vídeo.
Quando falamos sobre determinação genética, os cromossomos XX ou XY, estamos nos referindo somente ao nosso órgão sexual. A nossa orientação não está atrelada ao nosso órgão sexual, as pesquisas apontam que nosso desejo sexual e identidade de gênero podem estar atrelados a vários segmentos do material genético, inclusive até mesmo os níveis hormonais uterinos da mãe podem influenciar, você pode saber mais sobre essa pesquisa nessa matéria da revista Galileu.
O fato é que por tanto tempo acreditamos que a heterossexualidade é o comportamento normal que quando pensamos em outra possibilidade logo acreditamos que é um desvio, uma anomalia, um defeito, uma doença. Quando na verdade não há somente um normal quando falamos de sexualidade e de gênero, mas sim diversos comportamentos naturais e que confirmam a pluralidade da existência humana.
Os papéis de gênero que conhecemos socialmente nunca estiveram ligados a conceitos da biologia, o feminino e masculino cumprem um papel na reprodução na ciência biológica, e só. Todas as funções que são determinadas entre feminino e masculino estão ligadas à sobrevivência na natureza e em muitas espécies não há essa definição, como por exemplo o peixe-serra. Em 2015, foi descoberto que essa espécie se reproduz partenogênese (onde o gameta feminino sozinho é capaz de gerar outros indivíduos). Nessa matéria do site Pensamento Verde você pode conferir outras espécies que também não necessitam do gameta masculino para reprodução. Manter uma visão normativa da binaridade e heteronormatividade com o argumento de que é natural e necessário a continuidade da espécie humana é errado, porque além de não contemplar o que de fato é a espécie humana, também não é uma verdade absoluta entre outras espécies, como alguns tentam argumentar.
Quando falamos sobre vestimentas, trabalho, estereótipos, papéis sociais, estamos falando de construções de gênero. O que identifica uma mulher ou um homem vai muito além dos órgãos reprodutores ou do hormônio produzido que estampa algumas características fenotípicas. A antropologia já deu vários exemplos de como esses papéis são diferentes de acordo com a cultura, até mesmo ao longo da história. Não há nenhuma explicação plausível para que continuemos a compreender gênero e sexualidade através de padrões normativos construídos a partir de paradigmas já superados pela ciência.
Caso a sua religião pregue que a única orientação sexual possível é a heterossexualidade saiba que ela está limitada a pensar a partir de somente um aspecto do fenômeno humano, no caso a espiritualidade cerrada em uma religião. Se você é um profissional da saúde ou um cientista de qualquer área, compreenda que é seu dever ético agir de acordo com o conhecimento científico e não com suas crenças.
Não estou aqui afirmando que todos devem sair em defesa da comunidade LGBTQIA+ nas paradas pelo mundo a fora (o que seria ótimo). Estou afirmando que, toda fala que desvalida a existência dessas pessoas está equivocada, seja por se fundamentar em argumentos científicos já superados ou por estar compreendendo o assunto apenas por um dos aspectos que compreendem a totalidade da existência humana.
Por mais que existam alguns casos de pessoas que se diziam homossexuais e atualmente se dizem curadas e também casos de pessoas que passaram pelo processo de transição de gênero e se arrependeram, não desvalida a vivência de pessoas que naturalmente se identificam como homossexuais e/ou trans.
Como falei no começo do texto, autoconhecimento não é fácil, nós podemos errar muitas vezes sobre nós mesmos, podemos também deixar que os outros decidam sobre quem somos, nos deixar levar por ideias e conceitos e viver no automático. Se encaixar naquilo que é normativo é bem mais fácil, ainda mais se essa é a única forma de se sentir pertencente a uma comunidade, ou ainda de proteger sua vida, já que a cada 23hrs o Brasil registra uma morte por LGBTQIA+fobia, segundo matéria do G1.
Não escolhermos nossa orientação sexual ou identidade de gênero, esse é um processo natural de identificação, faz parte do processo do desenvolvimento humano. Porém manter um discurso discriminatório e preconceituoso disfarçado de crença ou opinião é sim uma escolha, e também pode não ser uma escolha consciente, dessa forma espero que esse texto possa ter ajudado a elucidar algumas questões e que você faça uma escolha consciente!
*Fui informada por um leitor que essa informação está equivocada, os sacramentos são sete no total: o Batismo, a Confirmação, a Eucaristia, a Penitência, a Unção dos Enfermos, a Ordem e o Matrimônio.