QUEREMOS SABER

Persona, de Bergman - apontamentos sob a ótica de uma psicóloga. (Contém spoilers)
Por: Franciane Nolasco
São muitas as possibilidades de olhar para o filme Persona. Mesmo dentro de uma perspectiva da psicologia são muitos os elementos possíveis de serem trabalhados, tamanha a genialidade de Bergman ao nos presentear com um material tão rico e oportuno sobre a existência humana. Neste texto especificamente lançarei alguns apontamentos juntamente com algumas indicações de leituras da área da psicologia e afins para abertura de possibilidades de discussões das temáticas encontradas..
Bergman, sua escolha estética e a corporeidade na imagem
Primeiramente, observando um pouco a estética trabalhada por Bergman e o modo como ele organiza os conteúdos a partir desta, é possível perceber o quanto acabamos em uma imersão gradual e progressiva no filme Persona. Xianghui Wen discorre em um estudo maravilhoso sobre como o cineasta explora o aspecto tátil em suas obras. Podemos observar que Bergman parece organizar as cenas de modo que podemos adentrar seus personagens pela via de suas corporeidades. Pela expressão de suas emoções, pelos corpos que levam closes excessivos, as partes que estão propositalmente escondidas e pelos diversos tipos de toques que acontecem entre os personagens o cineasta tece a trama, suas impressões e visão de mundo. O enredo se vela e se desvela por uma via em que os corpos aparecem sempre estrategicamente pensados, mas não excessivamente colocados de modo a transgredirem uma certa naturalidade.
Especificamente o filme Persona, parece não desperdiçar um segundo sequer trazendo sempre uma tensão iminente dos corpos que nunca é de fato resolvida. E que não apenas perpassa o aspecto estético mas parece também ter um propósito na apresentação do conteúdo, como comentarei mais adiante. Devido a via da expressão do corpo (tanto das atrizes quanto do que o cineasta escolheu mostrar e esconder em termos de imagens a cada cena) estar tão marcada quase que em “competição” com a via de expressão pela fala, Bergman constrói o filme de modo que a gente experiencia uma imersão e identificação por vezes muito forte, no entanto, podendo nos ser difícil o ato de refletir sobre tais experiências em um segundo momento. Esses corpos que ora falam ora escondem a vivência dos personagens costuram num linguajar silencioso a trama de forma muito amarrada aos conteúdos psíquicos de cada um, aspecto este também muito marcante na obra.
A abrangência de conteúdos e questões da existência trazidas por Bergman nos convida a pensar nosso existir. Para compartilharmos um pouco desta tarefa proponho que pensemos tais reflexões a partir de três pontos de vista. Sabendo, no entanto, que eles não são separáveis temporalmente como no tempo em que lemos um texto, mas que eles se costuram mutuamente num mesmo tecido do todo. Vamos observar, então, aspectos do ponto de vista da personagem da atriz, da personagem da enfermeira e da relação entre ambas.
Do ponto de vista da personagem da atriz
Nos bastidores da peça “Electra”, a atriz se espanta e permanece em um lugar de não sentido de sua atuação. Ela se emudece e escolhe passar a um estado de mudez voluntária dali em diante. Devido a sua mudez, nunca conseguimos apreender de fato o sentido dessa experiência para ela mesma. Apenas nos deparamos com outras personagens, uma médica e uma enfermeira, que desenrolam um discurso interpretativo sobre a experiência da atriz, buscando ora acolhê-la, ora compreendê-la, entendê-la, desestabilizá-la, e até provocá-la. Nesses discursos, ambas as profissionais tentam interpretar o que vêem na mudez da atriz. Posteriormente, em uma carta, a própria atriz consegue escrever ao marido e nos revelar um pouco do seu prazer em seu estado de mudez voluntária, em sua reclusa a vida turbulenta da cidade e em companhia de sua enfermeira com quem vem desenvolvendo uma relação um tanto paradoxal.
Se pensarmos as possibilidades de interpretação do que vemos a atriz expressar, é possível perceber pela fala da médica, da enfermeira, de sua carta e de suas expressões ao longo do filme que ela viveu um processo de esvaziamento de sentido com seu fazer artístico e pessoal. Não à toa, Bergman a coloca nos bastidores nessa cena. Ali, nos bastidores dela mesma, ela se descobre esvaziada em seu próprio fazer. Também, em sua carta e pela fala da médica, parece ter a ilusão de que no mundo ela pode existir sem movimento ou sem escolhas. Sua mudez é interpretada como um não mais escolher. No entanto, tal projeto está fadado ao fracasso, como ela mesma observará sua vida reclusa em uma relação idealizada ruir a partir das escolhas que ela mesma já sempre fez dentro da relação construída com a enfermeira.
Esse entrelace entre o ser do homem, a sua liberdade e seu estar fadado a escolher foi muito explorado por Sartre em várias de suas obras. Daniela Schneider, em um estudo sobre a condição ontológica (do ser) humana e a noção de liberdade, nos discorre sobre esse lugar no qual todos já estamos sempre lançados do nascimento à morte. O homem em sua existência, é sempre livre. Não livre num sentido do pássaro que alça um voo em liberdade plena, como exemplifica Sartre. Ou livre daquele modo de quem “pode obter tudo que deseja”. Antes disso, o homem é lançado irremediavelmente a suas possibilidades concretas diante das quais já sempre deve escolher. Pois o homem também sempre tem de ser. Somos fadados a sempre termos de ser e, portanto, escolhemos. Mesmo que nossos corpos sejam aprisionados ou torturados, ao aprisionado e torturado sempre estará presente a necessidade de escolher dentro das suas circunstâncias. Daí vem a máxima de Sartre “o homem está condenado a ser livre”. Isso não quer dizer que ele seja o fundamento de si mesmo, uma vez que suas circunstâncias o delimita e que não pode escolher não ser livres. Assim, a atriz segue em seu plano que parece a princípio trazer o ganho tão desejado, o lugar que ela achava que obtivera de não mais ter de escolher. Na carta, ela descreve como agora tem o que desejava e está em paz, em uma vida reclusa, sem fala, sem necessidades extravagantes.
No entanto (e aí, convenhamos, mora o perigo) a própria atriz não se dava conta do vínculo paradoxal que estava produzindo com a enfermeira que a acompanhava em seu retiro e tratamento. A atriz passa a desenvolver uma necessidade específica de relação com a enfermeira, a qual também cria um forte vínculo emocional com ela. Aos poucos, dentro dessas entranhas da relação entre ambas - e aqui Bergman utiliza muito o recurso dos vários tipos de toque e matizes emocionais que complexificam a comunicação e concretizam o vínculo entre elas - a atriz e nós junto a ela começamos a perceber que esse plano de viver no nada, sem escolha, sem decisão, sem solicitação do mundo, sem escolher papéis, sem mentir é ilusório. Até mesmo o seu silêncio era interpretado, passível de obter sentido no ponto da constituição do seu modo de ser com a enfermeira. O que para esta tratava-se de um silêncio de compreensão e acolhimento, para aquela de um deixar falar e analisar.
Ao longo do desenrolar da relação, também aos poucos vamos descobrindo o que pode ter acontecido com ela para que chegasse a este lugar. Compreendemos as condições que possibilitaram o sentido de vida que ela apresenta para sua existência nesse momento. Neste lugar, adentramos um certo embrulho com o teatro, com seu papel de atriz e com seu mundo de artista também. Bergman deixa algumas sugestões de mescla desses dois lugares, da vida e do teatro que se fundem dentro da personagem no instante da identificação desse esvaziamento que ela sentiu. A atriz desiste, de certa forma. Desiste de escolher entre os diversos papéis (falando da vida e metaforicamente do teatro) que todos nós devemos escolher e transitar. Por isso o termo “persona”, o qual dentro da vida pode ser compreendido como “os personagens” que escolhemos viver em nossas diversas facetas, a saber, o nosso personagem em nosso trabalho, em nossa escola, em nossa família, em nossos relacionamentos, em nossas redes sociais e etc. Vivenciamos todos esses personagens e, no entanto, eles são todos transitórios. Transitórios no sentido de que não somos de fato nenhum deles e nem tampouco a soma de todos. São personagens que se iniciam ao nascermos e que findam ao morrermos e nunca cessam de acontecer.
Também no teatro é possível falar da “persona” - como esse vestir-se de um personagem - tarefa esta a ser realizada pelo artista. A atriz desistiu de fazer essas transições, desistiu de escolher seus papéis: ela pode pensar ou desejar não escolher em sua mudez voluntária, mas isso de fato não acontece, pois na realidade passa a desempenhar uma nova persona com a qual se encontra fundida, no sentido de não mais querer transitar entre as outras personagens de sua existência. Sua nova persona, no entanto, lhe traz alívio e aí encontra seu ganho. No entanto, esse alívio não é o alívio de quem desempenha seus papéis e lida com as questões que lhe aparecem, o alívio daquele que escolhe e segue escolhendo. A ela lhe aparece um alívio que é completamente frágil e estilhaçado pela ausência de definição de sua parte. Uma vez que não se expressa com definição, não escolhe explicitamente em sua relação com a enfermeira, as coisas vão tomando um rumo cada vez mais obscuro e delineando um vínculo emocional paradoxalmente intenso, frágil e de sofrimento.
Na fala da médica, esta também lhe acentua que ela não pode não escolher. No entanto, dentro dessa perspectiva, ela escolhe essa nova persona que muito embora pudesse ser uma tentativa de não escolha, uma vez que se desenrola no tempo e no espaço é, portanto, uma possibilidade de ser. Também do ponto de vista do teatro, essa fusão a uma persona é muito perigosa ao artista, e aí todo o seu trabalho em adentrar, em vestir o personagem com toda sua técnica, paixão, conhecimento, estudo e trabalho árduo mas poder também “sair dele”, ainda que este sair sempre deixe um algo entendido entre ambos (artista e personagem) dentro daquela experiência que transforma o artista a cada papel. Ao se identificar com uma determinada emoção ou viver um processo catártico que é o que elas vivem em seguida, uma imersão, uma catarse feita de duas, atriz e enfermeira adentram um lugar sombrio de experiência de deslimite entre ambas.
Na trama, também a enfermeira lança uma interpretação sobre o silêncio voluntário da atriz. Tal interpretação se dá em um contexto muito problemático e agravante ao entendimento. Em uma relação terapêutica tal como ambas chegaram a desenvolver, essa interpretação pode ser adoecedora de muitas formas. A interpretação realizada pela enfermeira acerca das escolhas da atriz pode ser um reconhecimento de algo sem que a atriz estivesse de fato preparada para lidar com esse algo. Além disso, a interpretação da enfermeira tal como é realizada também perpassa uma certa imposição de uma suposta autoridade terapêutica. A enfermeira dotada de um certo saber discursa livremente (dada a mudez da atriz) sobre as mazelas de sua paciente. Tal disposição se mostra muito favorável ao contexto de persona que a enfermeira já sempre apresenta. Em vários momentos a enfermeira sente prazer em se impor e tem seu olhar maldoso - mais uma vez Bergman explora os paradoxos da personagem corporalmente - projetado na paciente: “Ela tem um olhar perverso”. Ao início, a enfermeira pressente que não deveria aceitar a relação mas aceita mesmo assim. Sente-se ameaçada pela atriz, no entanto, embarca na experiência. Ali há prenúncios de um caminho obscuro a se formar para ambas.
Do ponto de vista da enfermeira
Mesmo sabendo que poderia não ter estrutura mental para aceitar a paciente, a enfermeira dá início aos cuidados iniciando um processo terapêutico de forma muito inconsciente e acabando por formar um vínculo com muito sofrimento para ambas. A escolha de dar continuidade a um atendimento em que se identifica de antemão uma incapacidade do profissional de lida com o paciente é por si só muito questionável e até pode vir a ser uma prática antiética dentro do contexto da psicoterapia, por exemplo. Dentro do contexto do filme, tampouco mostrou-se uma opção “saudável” para ambas, até que a certo momento da trama a simbiose tornou-se inevitável. Aos poucos ela experiencia a perda da “persona enfermeira” através de sua necessidade de fala exagerada e inversão de papéis com sua paciente, que agora torna-se sua analisante.
Entrando em um processo de fala e identificação com aquilo que imagina que fosse um acolhimento pelo silêncio atencioso que a atriz lhe dirige como ouvinte, a enfermeira acaba por criar uma imagem da atriz de alguém completamente fora da relação “enfermeira-paciente”. Na trama há uma mescla entre as possibilidades de percebê-la como amiga íntima e/ou como amante. No entanto, tudo parece estar sendo criado fortemente no imaginário da enfermeira. Até o momento em que ela se depara com a carta escrita pela atriz, em que esta revela que gosta de ouvir suas histórias íntimas e que fica a analisando. A enfermeira se ofende fortemente, sentindo-se até mesmo enganada pela atriz que parecia estar a acolhendo e respeitando de verdade. Nesse ponto, o mesmo jogo entre intimidade-distanciamento e aproximação-afastamento que vemos nos jogos de imagem escolhidos por Bergman transparece na própria relação entre ambas, alcançando a complexidade do revelar e velar de cada personagem.
Ao sentir-se enganada, a enfermeira inicia um processo deliberadamente agressivo com sua paciente, além de insultos, maus tratos, ameaças e provocar acidentes intencionalmente a enfermeira lança-se sobre uma tarefa de impacientemente interpretar o silêncio de sua paciente e jogar sobre ela sua raiva e frustração em forma de discurso. A enfermeira comunica-lhe o que sente que pode estar se passando em seu processo com sua paciente levando em conta os dados de seu passado e também o momento de convivência que tiveram juntas. A enfermeira parece reencontrar parcialmente sua “persona terapeuta”, no entanto, já quase não é possível perceber separações entre ambas nesse instante da trama. jogo este que o próprio Bergman nos mostra pela sobreposição das imagens dos corpos. Seus discursos e corpos passam a relacionar-se em uma proximidade que apenas realça suas diferenças tornando esse realce cada vez mais fino até o que poderia ser uma união e identificação. Dentro disso, paradoxalmente, também temos a sensação de cura entre ambas, apesar do processo ser completamente insalubre. A cura vem de alguma forma mas o custo é meio alto.
Para compreendermos tal movimento de cura, se faz necessário percebermos que a persona nos proporciona esses papéis no mundo e ela é essencial para nos relacionarmos com os outros, no entanto, essa relação nunca pode ser completa no sentido de uma total simbiose entre as partes. Por mais que seja um encontro muito genuíno e transformador, ele não é derivado de uma total sobreposição das partes. No filme, ao mesmo tempo que existe esse desejo de conexão profunda com o outro (da enfermeira principalmente) existe o contato com o fato de que isso não é possível dentro do modo como ambas se colocam na relação. A enfermeira abandona seu lugar de escuta e passa a ocupar o lugar de fala, onde precisa se sentir compreendida, exigindo da atriz que ela ocupe, inversamente, o lugar de escuta (uma vez que encontra-se muda) e de acolhimento de sua fala.
Ao mesmo tempo, ainda há as questões desse romance que Bergman supostamente sugestiona. A enfermeira se perde também em seu papel profissional colocando-se num limite muito tênue entre terapeuta e amante. Bergman sugestiona o acontecimento erótico em algum plano entre ambas, não deixando claro se seria apenas no plano imaginário de uma das duas ou se no plano real consumado.
Em termos de modos de relação, as diferenças entre o ser terapeuta e o ser amante são muitas e inconfundíveis. Existe uma função muito ética e geradora do movimento da psicoterapia que pode ser assumida pelo psicoterapeuta facilitando a relação com o paciente. Isso envolve tanto o senso de self do terapeuta quanto o de persona, no sentido de compreensão da sua persona e das suas possibilidades e dos seus limites profissionais como do seu self enquanto ser humano visando a criação e sustento do vínculo com seu paciente.
Desta forma, o self do terapeuta, no seu sentido do seu todo, também deve estar implicado na terapia. Sobre o
caráter paradoxal da profissão do terapeuta, há escrito importantes realizados por muitos profissionais, dentre eles destaco Richard Hycner, que discorre sobre o tema em seu livro “De pessoa a pessoa” especificamente no capítulo sobre a profissão paradoxal. Por outro lado, também podemos compreender que o amante também precisa da persona para se relacionar com o outro. Por mais que essa relação possa proporcionar a cada um um encontro com seu ser mais abrangente no modo do amor, a persona deve exercer o seu papel de contato com o mundo assim como as transições entre os outros papéis desempenhados pelos amantes. Sendo a imersão total nesse encontro muito perigosa por vezes, podendo haver simbiose, projeções e identificações entregando a esse amor e vínculo uma faceta narcísica importante.
Podemos também nos lançar a especular e interpretar o que levou a necessidade de ambas a essa simbiose, a essa identificação. Podemos observar que devido às exposições que o Bergman faz na trama, poderia estar implicada uma dificuldade de lida com a própria dor, com o próprio vazio existencial. Bergman salpica aqui e ali as dificuldades de lida de ambas as personagens com esse aspecto de suas existências. E aí entra a parte da identificação da enfermeira com o seu esvaziamento de sentido, ela sabe que a vida dela não será lá grande coisa, sente-se satisfeita e aconchegada internamente mas não mais por fora (persona) diz-se mudar o tempo todo, mas não é uma mudança de fato profunda. Parece entrar na relação com a atriz a partir de uma vivência esvaziada de sentido também. Ao passo que a atriz se depara com seu vazio existencial mais profundo e o vive assim como suas constantes pulsões (encontra satisfação na vida reclusa) mas por fora parece simplesmente sem expressão, sem movimento, muda (persona). A enfermeira no início sabe que pode extrapolar seu papel, sua persona, pressente, mas adentra a relação mesmo assim.
Este erro profissional e ético favorece o processo de troca de papéis que acontece entre elas, uma vez que enquanto profissional você precisa disponibilizar o seu self ao paciente, no sentido de que não pode apenas interpretar o papel de terapeuta e esconder-se atrás de uma teoria que explica toda a realidade que ali se apresenta em sua clínica. Com a dissolução de sua “persona enfermeira” essa perda do self acarreta na simbiose que ambas experienciam uma vez que ambas utilizam a imagem que fazem uma da outra para garantir o tamponamento do esvaziamento de sentido que suas vidas vinham sofrendo.
Do ponto de vista da relação
Mais uma vez, no sentido interpretativo podemos pensar que se trata de uma grande engrenagem azeitada pela não aceitação do esvaziamento que cada existência estava apontando. Ambas não aceitaram viver esse processo de forma a elaborar sobre ele e se identificam com suas novas “personas” sentindo o alívio de uma suposta salvação num contexto supostamente terapêutico. Este não funciona de fato, dadas as perdas dos papéis de cada uma no processo de tratamento. A sensualidade também é uma marca importante a qual Bergman constantemente recorre no argumento do filme. Se uma união dos corpos de fato, no modo de ser da paixão, se concretizasse ambas poderiam talvez ter experimentado na carne essa sensação de intimidade e aproximação que tanto almejavam e tensionavam cada uma em sua esfera de necessidades. Da forma como
Bergman organiza a questão do corpo sexual, não sabemos com certeza se elas consumaram um ato carnal ou não, tudo pode ter sido algo extremamente mental, de uma fusão da mente de ambas, do imaginário de ambas. Bergman mais uma vez recorre às imagens específicas do modo de toque do corpo para revelar essa tensão, esse estado mental de ambas sem revelar o ato consumado em si. Adentrando as imagens dos corpos ora em tensões silenciosamente provocativas, ora em toques de intimidade, ora em olhares extremamente afetuosos.
Poderíamos também, por fim, refletir sobre a possibilidade de indicação de um prazer de relação que não perpassa exatamente a consumação carnal. Até o fim ficamos com essa sensação de que as duas tinham uma relação amorosa sim, porque há elementos fortes que indicam isso. Mas que, no entanto, não necessariamente existia em si, podendo ser apenas uma conexão muito profunda sem necessidade de um contexto amoroso exatamente, o qual relacionamos com o contexto amoroso apenas porque é o que primeiro nos chega à mente.
Será que Bergman não gostaria, justa e sutilmente, de nos apontar algo sobre nossas relações amorosas então? A se pensar.
Também existem as duas facetas da relação, uma possibilidade extrema de cura entre ambas e uma possibilidade de adoecimento extremo, ou até mesmo a possibilidade de Bergman estar nos apontando para os constantes ciclos de cura e adoecimentos que passamos e que são, de fato, inseparáveis. É claro que no filme ambas as facetas parecem ser mostradas a nós com uma lente de aumento. Lente de aumento esta que pode estar justamente nos revelando algo que Bergman possa ter percebido nas relações humanas, tanto nas relações “saudáveis”, que nos fazem bem, quanto nas “insalubres”. Por isso, parte da experiência ao entrarmos em contato com o filme pode ser de aversão ou estranheza. Talvez poderia ser um erro pensar que esses ciclos de sofrimento e cura podem acabar enquanto estivermos vivos e que há alguém no mundo que não precisa saber “jogar” nesses dois lados ou que há alguma relação que se preste a ser mais profunda que possa fugir do enfrentamento do sofrimento e do encontro com a cura. Apenas possibilidades de interpretação do sentir. Então, vamos lidando..